um postal que sabe que nada sabe
"eu não sei tanto sobre tanta coisa"
🎧 um postal para ler ouvindo silence 4 - eu não sei dizer
para tudo na vida, parto de uma base de humildade: eu não sei tudo sobre nada.
e ainda bem! o “caminho do aprender” é infinito e se isso não é entusiasmante, então o que pode ser?
uso muitas vezes uma frase de agostinho da silva, por sentir que me assenta na perfeição: “sou especialista da curiosidade não especializada”. de facto, sinto que sou uma curiosa em muitas áreas - por vezes, essa curiosidade chega a tocar a ténue linha que a separa da obstinação. há temas, pelos quais me interesso de uma forma (digamos que tão) envolvente que me levam a procurar muita informação para os perceber melhor e, por vezes, acabo por me deter em textos ou livros que “não estava à espera”. aconteceu há tempos com uma “simples” frase de nietzsche que me despertou algum interesse (por estar relacionada com a forma como nos envolvemos nas leituras que fazemos…) e que acabou por me levar até ao seu livro “a genealogia da moral” que, de resto, não estava até então, na lista do que queria ler.
era esta, a frase:
“ (…) para elevar assim a leitura à dignidade de 'arte' é mister, antes de mais nada, possuir uma faculdade hoje muito esquecida, uma faculdade que exige qualidades de vaca, e absolutamente não as de um homem 'moderno': a de ruminar..."
ruminemos, então!
acontece, amiudadamente, esta minha entrada em espirais cujo fundo não vejo mas, das quais, tiro partido de cada volta para ir aprendendo um bocadinho mais. aconteceu com magritte, quando achei que queria saber mais sobre as suas obras e a sua vida; aconteceu com a intrigante clarice lispector; aconteceu com os poemas de hilda hilst e o seu misticismo, erotismo e ironia que me seduzem… e vai acontecendo com vários temas.
provavelmente, somos todos um bocadinho assim, movidos a curiosidade. uns, naturalmente, mais que outros. e uns mais entusiastas de umas áreas, outros doutras. e que bem me soa essa diversidade: uns interessam-se por umas coisas, outros por outras… e depois, trocam(os) ideias, pensamentos e saberes!! 😉
na verdade, basta inventariar tudo o que não sabemos e gostávamos muito de saber, para perceber como somos pequeninos em conhecimento. e podem ser coisas simples, até: jogar xadrez, falar uma segunda língua num nível avançado, coser, saber enumerar todos os países da europa, um truque para deixar o arroz solto, tirar uma nódoa difícil e por aí fora….até ao infinito.
e depois, vem a million-dollar question: é melhor ser bom em vários assuntos ou ser muito, muito, muito bom num tema e menos noutros?
cada vez mais se percebe que o futuro dos jovens é generalista e que as profissões do futuro requerem transdisciplinaridade, na medida em que serão valorizados conhecimentos mais abrangentes e menos especializados (deixando claro que ser generalista não significa que não se seja criterioso e hábil no que se sabe e executa, evidentemente).
entretanto, e de uma forma menos polarizada surge - no ambiente mais corporativo - há uns anos o conceito de t-shaped como o “ideal”, por agregar na mesma pessoa alguém especializado num assunto que pode acrescentar valor à função/empresa, mas que é também detentor de muitas e sólidas habilidades e conhecimentos mais generalistas. (e há quem diga que esta “fórmula” serve, sobretudo, para satisfazer os interesses da sociedade capitalista, mas quando falo de tudo o que (não) sabemos, falo também em contexto pessoal, não só em competências técnicas)
…e tudo isto para vos perguntar se se identificam mais (fora dos contextos profissionais…) com um perfil generalista ou, por outro lado, como uma pessoa que prefere saber muito sobre um determinado tema, que a apaixona, e orbita pelos outros de forma mais ténue e ligeira.
sobre nada saber
escreveu peter handke, eu concordo muito. somos a soma de muitas coisas; a maior parte delas, os outros não sabem.
o poema de manoel de barros
“ agora não quero saber de mais nada, só quero aperfeiçoar o que não sei”
a frase de guimarães rosa na sua obra-prima grande sertão: veredas
“eu quase que nada não sei. mas desconfio de muita coisa”
o livro de dolly alderton “tudo o que sei sobre o amor”. o que sabemos sobre o amor?! muito, pouco, nada…
é autobiográfico e cimentou-me a certeza de que fui, de facto, bastante ajuizada na minha adolescência! gerações e culturas diferentes, a minha e a dela, muitas vivências que não tive (nem fazia questão) mas ler é também “viver o que não vivemos”, por isso foi bom conhecer outras perspectivas e aventuras com o amor como pano de fundo.
deixo no ar esta pergunta que há dias vi alguém a partilhar no instagram e que me fez pensar…
e fico disponível para que me contem uma coisa nova, uma curiosidade engraçada, algo para acrescentar à minha lista de temas para falar em festas, quando não houver assunto! 😊
…porque, afinal, “eu não sei tanto sobre tanta coisa…”.





